Fome

“Os olhos de jabuticaba devoraram com prazer aquela boca de cereja, antes do primeiro gole de vinho, quando ela se abriu e mordeu, delicadamente mas com vontade, um pedaço grande demais de vitelo ao vinho. Sua mão, branca como o leite, tocou a pele caramelo escuro dele. Não precisavam de palavras, tudo estava… a “perfeição” ela diria rindo. Dizem que a fome é o melhor tempero, e depois disso? Depois a gente se apaixona.”

Os comilões, essa raça indefesa. Se reconhece um a distância: as bochechas sempre de um vermelho maçã, os olhos, apertados na cara, estão sempre procurando um potinho de patê, um punhado de amendoim e as mão aflitas, entram e saem dos bolsos, ora trazendo um caderno de anotações, ora puxando uma balinha trazida da última viagem. Gostinho de memória.

Raça de coração mole essa, pior que lambari da fazenda do meu avô. São fisgados pelo estômago esses pobre diabos e se apaixonam tanto pela mão que mexe vigorosamente um risoto quanto pelo risoto, que pode retornar em sonhos, como bolinhas fritas recheadas com carne.

Quando confundem amor com fome, a coisa fica pior. É um tal frio na barriga, uma carência de chá quente e cafuné. Vontade de biscoito de chocolate, mais de chocolate que de biscoito eu ousaria dizer. E para matar essa fome, se unem. Andam em bandos, silenciosos até a segunda taça de vinho ou conhaque, procuram a menor mesa a fim de confiarem, sem muito alarde, as últimas descobertas da semana. Você viu lá no Santa Luzia, a costela? Que costela. Vou fazer para a Maria, ela adora costelinha… Ah, mas o abacate da feira, esse tá imperdível, quero ver a cara dele, quando eu colocar na mesa, minha salada tropical.

Já vi um desses morrer de amor, de tanto comer, só para agradar ao objeto amado.

Nas degustações de vinhos, são os mais falantes. Puxam papo só para poder tomar mais uma daquela taça. Sem compromisso. Me manda um email, depois te passo o nome daquele restaurante. E não sobra taleggio sobre taleggio, se este estiver dando sopa na bandeja.

Mas o melhor mesmo é que os comilões tem dois corações, um no peito e outro na barriga. E talvez esse seja seu maior defeito. Essa vontade de sempre estar abocanhando sem se acanhar, as coisas boas e saborosas da vida. O peixe também morre pela boca, já dizia meu avô. Mas morrer de amor ou de tanto comer dá no mesmo. O fim, desses casos quase sempre justifica os meios, especialmente se esse meio estiver bem recheado.

 

 

texto publicado originalmente em OPINIÃO no portal BicoFino.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s