O Tempo este Traidor

Cá estava eu de bobeira na net quando me deparo com o seguinte artigo: Layers of Deceit ,em português, camadas de decepção: por que os escritores mentem e mentem e mentem sobre o tempo de preparo da cebola caramelizada? O discurso do texto é óbvio: Não se prepara cebola caramelizada em 5, 10 minutos. E com um timer em mãos lá se vai Tom Scocca tirar a teima fatídica e esfregar na cara de quem quisesse ler,  especialmente na cara dos colunistas de gastronomia, provando que uma cebola caramelizada leva de fato, uns bons 45 minutos plus.

Bom, este artigo gerou uma segunda discussão, mais interessante talvez do que rebater a cebola e suas técnicas, que é por que os escritores culinaristas hoje querem tanto nos seduzir com receitas “rápidas” ?.  Técnicas onde qualquer receita e qualquer um pode brilhar numa cozinha. Bato o olho na minha estante buscando algumas referências e acho: 365 receitas fáceis – todas com menos de 25 minutos de preparo. Se vou no site de alguma livraria só com o titulo fácil, rápido e menos de 30 minutos eu perderia aqui uma tarde toda em resenhas. Mas eu não  vou levar o timer para cozinha e nem sair por ai gritando: Abaixo ao seu ovo de três minutos!!!. Eu nem sei quanto tempo levo para fazer um ovo de três minutos, alguém aqui já conseguiu levar ao pé da letra e fazer um ovo quente em exatos 3 minutos?

Parece até estranho eu falar sobre isso já que meu tema é gastronomia e receitas, esta arte/ciência para iniciados. Mas acontece uma coisa, eu também já percebi assim como Scocca que  receita de revista com minutagem não serve pra muita coisa. Quem aqui tem um fogão viking, forno combinado ou elétrico ou um thermomix ( a mais nova menina dos olhos de meu amigo)? Poucos, portanto se descontarmos a aparelhagem, a iniciação, os cursos de férias na Cordon Bleu e outras cositas más, nos restam somente dúvidas, panelas queimadas e frustração. Eu sei disso pois minha cozinha é precária e minha paciência para ler receitas curta. E eu apoio Scocca no sentido de que somos enganados e ludibriados por receitas “faça em casa o pudim do chef”. Em  maior ou menor grau, existem seus êxitos, porém, antes de convencer alguém a ser um seguidor fiel de receitas rápidas e culinaristas cools vamos rever o conceito: O que vale mais, o tempo ou a técnica? Sem erros não existem acertos e este frenesi e frustrações todas acontecem pelo fato que estas matérias e receitas vendem muito mais a idéia de super acerto, do que a possibilidade da pessoa realmente se envolver com o que está fazendo. O meu ovo de três minutos demorou anos.

Alguns exemplos práticos: No pacote de polenta fala pra cozinhar 40 minutos, o que eu cozinhei em 20. A massa folhada, nem comento,  180o X 20 minutos, nunca foram referências no meu forno. Frango assado, molho de tomate rápido    o do Jamie mesmo) entre outras coisas… Nunca, nunca mesmo, consegui levar ao pé da letra e a coisa sair como na foto. Mas perseverança, repetição e uma boa pitada de inteligência ajudam. Não que uma receita bem escrita seja uma ilusão, não é, mas para nós, que cozinhamos em casa e dependemos de alguns variantes ( panela sem teflon, assadeira pequena e forno velho são alguns exemplos) importantes, o feeling e o olhomêtro contam muito. Mas, vocês irão pensar, Paloma, você está excluindo toda uma classe de pessoas que não cozinham bem ou não dominam técnica nenhuma ou simplesmente são paneleiros de primeira viagem. Na minha opinião, estes são os que mais tem sucesso. Quando você não sabe, você tenta melhor, olha bem se a cebola está transparente, prova mais uma vez um macarrão, e abre o forno umas 30 vezes até se certificar que o rosbife tá moreninho. Quando escrevo as minhas receitas – assumo que é um pouco para iniciados sim, tento dar tempos aproximados. Não vou falar, vai lá e arrasa com seus 15 minutos de fama, porque isso não vai dar certo.

O que me incomoda nesse mercado da gastronomia é  que ele caminha de mãos dadas com o nosso tempo, que é curto, então vamos lá vender o que as pessoas querem: praticidade. Mas elas esquecem que no meio disso tudo tem sujeira, dedo cortado, manteiga no chão e o vinho, ah, este outro traidor, que nos deixa confusas e nos fazem trocar o sal pelo açúcar. Acontece, mas isso não está nos livros, porque assim como a história parece que os livros de receitas foram escritos por vencedores.

Apesar do texto de Scocca parecer um pouco presunçoso e talvez focado somente na cebola, ainda assim nos dá um certo saudosismo de quando os livros de receitas eram feitos por pessoas como nós, onde existe técnica sim , mas eram mais universais, focadas muito mais no como deve ficar, do que em quanto tempo deve-se fazer, todo mundo já comeu o rosbife da avó e todo mundo ou quase todo mundo sabe mais ou menos como deve ficar. Fica aqui um exemplo:

 

FATIAS DE BISPO: 400g de pão de forma, 8 ovos, 500g de açúcar, 1 xícara de água, 50g de manteiga, canela o quanto baste. Modo de fazer:  Preparar uma calda com o açúcar e a água em ponto de espadana. Juntar a manteiga. Bater os ovos e envolver as fatias. Lançar as fatias na calda que deve estar numa vasilha larga. Tirar com uma escumadeira e colocar numa travessa, polvilhe com canela em pó. Por fim, regue com a calda que sobrou.”

 

 

Artigo publicado no portal BicoFino.com.br em OPINIÃO

Uma resposta para “O Tempo este Traidor

  1. Pratos rapidos são as demanda das donas de casa modernas..Ela precisam que o prato fique pronto rapido e bonitopr pra postar no instangram….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s