Os Drinques que as “Mina Pira”

Menina gosta de rosa e menino de azul, mas não vejo nenhum homem bebendo Sex on The Beach no bar e comendo a cereja marrasquino cheio de desejo. Nem se acabando numa salada de”chèvre” com aspargos. É claro que existe todo um target focado em mulheres onde bebidas adocicadas, coloridas e com frutas engordam os caixas da industria da diversão. Mas será que é isso que realmente queremos? Guardachuvinhas chineses, melancias em forma de coração e mix de frutas vermelhas ardem aos nossos olhos, claro, mas isso não quer dizer que é isso que queremos, sempre. 


Passei por algumas situações onde ao ouvir a frase “me surpreenda”, o barman me aparece com misturinhas que poderiam ser vendidas na Victoria´s Secrets, na baia dos cremes hidratantes. Tá certo que a minha cara não inspirada uma dose de scotch, mesmo porque eu não bebo uísque e com certeza pareço bem mais nova do que sou, mas este preconceito em achar que por ser mulher, com toda a certeza do mundo vou querer uma bebida doce e rosa já saiu do controle. 

Num restaurante que fui, um amigo bebia com toda a sua masculinidade um copo de Negroni, um drinque italiano, com cara de trench coat e sapatennis e que é o drinque do momento. Eu queria beber aquilo, ou algo parecido, amargo e intenso pero no mucho. Olhei para o barman que me falou em tom conspiratório “Chegaram umas vodcas novas, importadas… Sabor morango”. Ao que retorci o nariz e falei ” Será? Mas e esse Negroni ai?”. Sem nem piscar os olhos ele me aparece com um copo, rosa, com a vodka sabor morango e me fala “Acho que você vai gostar, é drinque novo.” Acha que eu vou gostar porque? De qualquer forma, agradeci com um belo sorriso de batom vermelho e com mindinho em riste provei a poção. Deus me perdoe os pensamentos que tive na hora. Bebi três grandes goles do xarope para adultos, dei o resto pro meu amigo, escondi o copo e falei “Hmn, delicioso, agora, por favor, um Negroni.” 

Em outra situação pedi o cosmopolitan ( ok é rosa, mas é de vodca de verdade pelo menos), sem nem me consultar, surgiu na minha frente uma fantasia de abacaxi, grossa, com fiapos, groselha e guarda-chuva: “O que é isso?” . “O seu drinque”. “Eu não pedi esse babalaô de abacaxi”. “Senhora, acabou o cranberry e o barman te mandou essa sugestão”…”Que sugerisse antes, me traz uma gin tônica, por favor”. 

Não entendo muito bem de marketing, mas existe a tendência a uma certa infantilização das bebidas e de seus sabores. Os caras não piram em gelatina de uva, espuma de açaí com cachaça nem em drinques compostos por mais de 2 cores. Nós mulheres estamos consumindo mais, é fato. Estamos mais saidinhas, mais ousadinhas, vamos a festas e bebemos smirnoff ice para dançar na pista. Mas isso é parte do maquiavélico mercado das bebidas alcoólicas para pegar adolescentes e minas que piram. 

É o famoso efeito peito de frango grelhado. Não quer nada pesado para o almoço? Peito de frango nela. Onde isso vai parar? Quando digo que não bebo vodca com sabores exóticos, drinques açucarados e coquetéis arco-íris não quer dizer que estou levantando uma bandeira sufragista, apenas acho que existe uma preguiça generalizada e um lobby gigantesco nos induzindo a comprar e consumir rótulos voltados para uma categoria. Nesse caso a nossa. Bem, eu permaneço fiel ao meu gin tonica, caipirinha de cachaça e até um spritz amarguinho. Luluzinha sim mas sem glitter de morango, por favor.
Texto publicado originalmente no portal BicoFino.com.br em OPINIÃO

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